Al Green salva [papodehomem.com.br]

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por Fred Fagundes
em 07/11/2010 às 7:01 | Crônicas e contosCultura

 

Numa época em que videogames tinham no máximo 10 bits e as crianças só matavam aulas, haviareuniões dançantes. O ritual rítmico resume-se em uma festa – ou baile – em que as meninas humilham os meninos de uma forma que jamais humilharão novamente. A sede do evento era normalmente a garagem de alguém ou o salão de festas do condomínio.

 

Não havia, tecnicamente, convite. Para ser aceito bastava levar um refrigerante ou comes, tipo salgadinhos. Essa divisão era feita antes da festa devido a um acordo firmado em meados de 1970. Ficou decretado naquela época que as meninas devem levar, sempre, a comida. Aos meninos restava a bebida. Álcool, talvez, mas cuidado com a possível fiscalização de um pai passível a sogro. Se ele levasse a filha na marra, provavelmente as outras gurias fugiriam na cola.

A decoração do local não era assunto de muita importância. Um globo era luxo. As luzes coloridas eram na verdade lâmpadas simples enfeitadas com papel celofane vermelho, verde ou amarelo. Certa vez o Kombosa, grande Kombosa, descolou emprestado do irmão uma máquina de fumaça. A atmosfera do ambiente transpirava sedução.

“Precisando de uma mãozinha com sua garota dos sonhos?”

Mas aquela era a noite do Pereirinha. Saca o Pereirinha? Bom, o Pereirinha era o ser mais azarados dos moicanos. Não aguentava mais ostentar esse nem um pouco honroso título. O jovem não havia passado da segunda base. É, a mão no seio. Se hoje você encontra peitos pré-adolescentes com facilidade no YouTube, naquele tempo uma buzinada era guardada a sete chaves.

Mas vamos ter foco. O Pereirinha tinha um problema. Um defeito que o perseguia desde o início da então curta vida. Ele não sabia dançar. E as meninas não gostavam de meninos que não sabiam dançar. Começava a reunião, era fatal. Pereirinha ficava sentado, de canto, chateado e deprimido enquanto observava as gurias e guris destruindo na pista de dança. Elas chamavam, mas ele não ia. Ele tinha vergonha.

Mas aquela noite seria diferente. Ah, seria.

Pereirinha não foi disposto a dançar. Foi disposto a tomar uma atitude. Sabe-se lá o que, mas ele prometeu pensar no caminho.

Não conseguiu. A festa comendo solta e o pobre Pereirinha lá, sentado, hora passando o dedo na borda do copo, hora enrolando a toalha da mesa. E azarado. O som tocava um new agecontagiante. Mas o Pereirinha não curtia. Trenzinho da tequila? Não, obrigado. O pobre do Pereirinha tinha medo de arriscar qualquer detalhe que acusasse uma movimento levemente sincronizado com a música.

Lá pelas tantas ocorreu o momento crucial daquela noite que entraria para a história das reuniões dançantes. Todos estavam na pista de dança. Menos, eu disse menos, duas pessoas. Pereirinha tinha companhia na falta de vontade de dançar. Era simplesmente Laura. Ah, a Laura. Como definir? Laura era desejada por todos os meninos e invejada por todas as meninas. Um a um, ela ia recusando quem a convidava para dançar.

Existem momentos em que um menino torna-se homem. Não é uma idade ou uma fase da vida. São momentos dispersos que ocorrem imediatamente e sem aviso prévio. Aconteceu com Pereirinha.Era aquela a sua hora de virar homem. Esqueça a timidez, o medo ou o sapato apertado. Era ele, a pista, e Laura. Pouco mais de seis metros. Ele a convidaria para dançar.

Pereirinha levantou da cadeira tal como uma onça com dor de dentes. A festa parou. “Ele caminha?”, chegaram a perguntar. Após dois passos Pereirinha foi interrompido pelo Ferroni, um cara legal, mas não tanto quanto o Kombosa. Ferroni questionou a iniciativa de Pereirinha. Amigos tentaram evitar, sabiam que a humilhação poderia ser fatal para a vida sexual do pobre azarado que não sabia dançar.

Mas não tiveram chance. Pereirinha empurrou Ferroni e quem mais estivesse na frente e seguiu. Seus amigos alinharam-se frente às cadeiras dos meninos e, atônitos, só observavam. Pereirinha deu mais um passo. O quarto passo, faltavam uns seis. Quando estava na metade do quinto passo, um milagre. Algo diferente era emitido pelas caixas de som da festa:

“I’m, I’m so in love with you…”


Link YouTube (versão original) | Dê play para entender melhor esse momento da história.

Era Al Green. Al funking Green. Aquilo pro Pereirinha foi como uma injeção de morfina pro Zico na Copa de 1986. Ele chegou a parar no meio da pista por um instante. Nada que um grito de “não pára agora, filho da puta” dos amigos – ah, os amigos – não o trouxesse de volta para a Terra.

“Whatever you want to do/ It’s alright with me…”

Seis passos. Sete. Oito. Ih, ela olhou pra ele. Pereirinha tremeu, chegou a virar o corpo para mudar de direção. Seus amigos, em coro: “Ohhhhh…”. Mas era agora ou nunca. As apostam já davam 3/1 pro Pereirinha. Ninguém mais dançava. Todos queriam saber como terminaria aquela investida.

“‘Cause you make me feel so brand new”

Nove, dez passos. Ela olha no olhos dele. Cáspita, ela estava mais perto que imaginávamos. Foi aí que Pereirinha percebeu. Ele não havia pensando em nada para falar. Teve dez passos para pensar em algo inteligente mas não conseguiu. O que fazer? Perguntar as horas, onde fica o banheiro, se ela achava que o Roth só não perdeu a Libertadores porque não teve tempo, qualquer coisa! Ele só não podia ficar parado, ali, com aquela cara de palerma enquanto o Al Green cantava.

“And I want to spend my life with you / Ain’t the same since, baby, since we’ve been together”

–Tu queres dançar?

Sabe quando ela ia aceitar? Nunca. Todos os meninos já haviam tentado. Porque ela ia aceitar dançar com ele? Ele, o Pereirinha. Gargalhadas no salão já davam como certo o vexame histórico do Pereirinha. Tolos. Tolos!

–Hum… E por que não dançaria?

A menina mais desejada do mundo naquele momento encontrava-se, enfim, nos braços de Pereirinha. Os amigos vibraram. Os invejosos não acreditavam. E as meninas começaram a achar Pereirinha uma graça.

“Oh, loving you forever / Is what I need”

Com a cabeça de Laura perfeitamente posicionada em seu ombro, Pereirinha preferiu o silêncio. Dançou como nunca havia dançado antes. Nunca mesmo. Afundava seu nariz nos cabelos cheirosos, macios e ruivos da parceira. Sorria bobo. Viu-se homem. E antes do final da terceira estrofe, teve uma revelação:

–Pereirinha, posso te contar um segredo?

–Claro.

Eu adoro Al Green.

“Let me be the one you come running to/ I’ll never be untrue”

Mulheres bonitas podem ter bom gosto.

Logo, carregue sempre um CD do reverendo Al Green no seu carro.

“Ih, bro, às vezes nem eu sei o que fazer. Aí coloco um CD meu pra tocar e tá tudo em casa.”

 

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